Caga Sentenças

Todo o Português caga a sua sentença. Neste espaço venho deixar a minha poia.

Segunda-feira, Agosto 22, 2005

DICTAVISEUR


Comparativo Salvadores de Pátria Ibéricos

Com a complicada conjuntura mundial dos anos 20-30 do século passado pulularam no mercado lançamentos para satisfazer a necessidade de salvadores da pátria que pudessem dar resposta aos problemas por resolver.
Assim um pouco por todo o lado surgiram ditadores fascistas ou pelo menos fascizantes que tinham como pontos em comum um chassis masculino e um equipamento deveras completo, nomeadamente dispondo de culto de personalidade, ideais conservadores, desrespeito pelos direitos humanos, belicismo e muitas vezes o apoio da religião dominante no seu país de origem.

No mercado ibérico os seus melhores representantes foram os modelos Portugal Salazar e España Franco os quais apesar de partilharem a filosofia vigente ficaram aquém dos topos de gama desta tendencia: o Italia Mussolini, o Nippon Hideki Tojo e principalmente o primus inter pares Deutschland Hitler.

O Salazar e o Franco partilhavam do mesmo chassis masculino e latino, no entanto enquanto o primeiro dispunha de um sóbrio design civil (com fato e gravata de série) o segundo tinha uma carroçaria militar derivada dos tempos da Guerra Civil Espanhola (1936-39).

O Salazar foi lançado inicialmente como ministro das finanças para mais tarde se tornar presidente do conselho. Ficou conhecido pelas suas boas prestações económicas e acima de tudo por ser verdadeiramente económico quer nos consumos urbanos quer nos consumos rurais o que lhe valeu a alcunha de Botas.

Por seu lado o Franco herdou um mercado em ruinas do qual só foi capaz de recuperar com o auxílio americano do pós-guerra. A partir de então as suas prestações económicas foram consideradas como um milagre.

Ao nível externo ambos se apoiaram mutuamente e o Franco tentou convencer Deutschland a fazer parte do Eixo, com pretenções sobre Gibraltar e o Norte de África. Tentou convencer mas não conseguiu apesar de ter recebido auxílio quer deste quer do Italia para se impor no mercado local. Seguiu-se a Segunda Guerra Mundial e tanto o Salazar como o Franco mantiveram-se neutrais apesar do segundo ter enviado voluntários para a Frente Leste.

Com o final da guerra viram-se ambos isolados. Os modelos fascizantes tornaram-se demodés no mercado europeu e foram progressivamente sendo substituidos por toda uma nova série de modelos vindos de leste. Seguiu-se o facelift quer no Franco quer no Salazar depurando os tiques ligados à estética fascista mas em ambos os casos tanto a base mecânica e a filosofia inerente mantiveram-se as mesmas.

Nos anos 60 enquanto o Franco experimentava um nítido bom desempenho económico o Salazar viu-se envolvido com a guerra nas colónias o que lhe impediu colher os frutos da bonança que se fazia sentir naquela época de prosperidade e petróleo barato. No entanto ambos modelos começaram a sofrer um certo desgaste no mercado que apesar de tudo não impediu que permanecessem em circulação por mais alguns anos.

Em 1968 Salazar sai de circulação devido a problemas de segurança. Pela mesma altura Franco apresenta o seu sucessor, o futuro rei. A Salazar sucede Portugal Caetano, um novo modelo que se apresentou ao mercado como uma mudança (a chamada Primavera Marcelista, segundo a publicidade de então) mas de facto a mudança foi pouca. O novo modelo acusava uma filosofia de mercado há muito gasta.

Franco saiu de circulação a 1 de Abril de 1975, o mesmo 1 de Abril em que anos antes tinha também saído do mercado o modelo España Primo de Rivera. Tinha sido um modelo de grande longevidade, 36 anos no mercado.

A sucessão deste modelo seguiu-se sem grandes traumas, no entanto à gama Estado Novo de Portugal (que durou até 1974) seguiu-se um periodo conturbado e incerto em relação ao rumo a tomar pela companhia. Portugal purgou quase todas as menções toponímicas em relação ao seu modelo mais caracteristico do século XX. España, pelo contrário, mantém numerosas menções um pouco por toda a parte do longevo Franco.

Não perca no próximo número:

Comparativo:

Ditadores canibais de África: Centrafrique Bokassa face a Uganda Idi Amin

Artigos:

Casamento de conviniência: ditadores apoiados pelas democracias ocidentais

Cuba Fidel, ditador todo-terreno

Dossier:

France Pétain, o francês de mecânica alemã


3 Comments:

  • At 8:35 PM, Anonymous irmã lúcia said…

    Ainda bem que estes modelos sairam de moda, ouvi dizer que as suspensões eram uma merda e que não tinham segurança nenhuma. Daí os grandes acidentes que causaram!

     
  • At 9:08 PM, Anonymous seta said…

    Ditadores canibais de África Centrafrique Bokassa face a Uganda Idi Amin.
    Ora ai esta um tema interresante!

     
  • At 3:07 PM, Blogger Cão com Pulgas said…

    Quando um dia, alguém se lembrar de comparar os maiores génios da escrita para blogues, o PapaRatzi de 2005 ganha o título de modelo do ano.
    Parabéns! Excelente texto.

     

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