Exploração- Uma história verídica.
O Miguel entra às 7 da manhã, e saíria supostamente às 7 da tarde, com direito a 1 hora de almoço. Na verdade, são muito raras as vezes que o Miguel sai às 19h. Quando lhe pergunto a que horas sai, responde me no seu português de leste: "Umas vez 8, 9, 10... meia noite... depende".
Esta empresa é um caso muito particular. Aqui o horário oficial é mais extenso que nas outras. Aqui definem-se 11 horas de trabalho como horário standard. Mas na verdade são sempre mais, porque a empresa nunca deixa ninguém saír enquanto o trabalho não estiver acabado.
Aqui, não há férias, não há subsidio de natal, nem subsidio de férias, nem subsidio de alimentação. E desengane-se aquele que pense que se a empresa não paga subsidio de alimentação, paga almoços. Nããã, nada disso.
O salário até é atractivo à primeira vista (pelo menos o meu), mas tudo depende de como se fazem as contas. Se formos a contabilizar os rendimentos anuais, sem os subsidios que normalmente constam numa folha de salário, chegamos ao final do ano com menos dinheiro, do que se tivessemos trabalhado com um salário menor, mas com todos os direitos assistidos.
Gostei muito de conhecer o Miguel. Estivemos a trabalhar juntos para esta empresa numa montagem de uma feira, num longo dia de 15 horas de trabalho. Fiquei a saber que a Moldávia faz fronteira com a Roménia e com a Ucrânia, e que a lingua moldava é também um cruzamento entre estas 2 culturas e que se escreve com o alfabeto romano. A bebida mais tradicional na Moldávia é o vinho, que segundo o Miguel, é melhor que em Portugal, pelo menos o vinho caseiro, diz ele. O Miguel tinha uma frase muito engraçada: "Em todo o lado há terroristas!" E é mesmo verdade.
O que eu não gostei mesmo foi de ter trabalhado as 15 horas, de estar a fazer um trabalho que não era inicialmente o que me estava atribuído, e de pactuar com esta exploração.
Obviamente que não quis continuar e comuniquei-o à gerência.
Eles tentaram dissuadir-me da minha decisão, dizendo que nos dias de hoje não era fácil encontrar uma pessoa honesta como eu, que eu devia continuar porque em pouco tempo o meu salário quase duplicaria e que preferiam ajustar-me os horários às 8 horas tradicionais do que ver me ir embora. Mas eu não consigo pactuar com uma entidade patronal que me dá 8 horas de trabalho e um bom salário, e ver que o pessoal das obras trabalha em média (!) 14 horas diárias, e são chantageados com uns trocos. Todos os funcionários desta empresa, precisam desesperadamente de dinheiro e só por essa razão é que se deixam ficar. Cometeram erros na vida que agora pagam árduamente com o seu suor, sem que nada possam fazer.
Isto já para não falar das condições em que mandam o pessoal trabalhar. Sem roupa adequada, sem ferramenta adequada, tudo velho, sujo, perigoso... o que interessa é deixar o trabalho feito, mal ou bem, para receber a quantia choruda que foi definida para o serviço.
Roubam-lhes os bolsos, roubam-lhes a vida, a familia, a dignidade e toda a réstia de amor que possa existir dentro deles.
Cá eu. não sou desses, e felizmente apercebi-me a tempo.
Assim, até eu enriquecia.
Excusado será dizer que estou novamente desempregado, mas feliz. Afinal, devolveram-me a minha vida.



